Recortes da Glacy
Foto retirada do Google
Esse texto expressa o que as Mulheres estão buscando desesperadamente.
Algo para mudar, mas esquecem que a mudança tem que vir de dentro e não de fora,pois pode acontecer algo inesperado.
Cuidado!
Leiam o texto.....
Vera,
Aconteceu exatamente o que eu temia, acordei com um rosto que não me corresponde.
Às vezes tento me consolar pensando que estou desfigurada de tanto chorar, mas não é verdade. Eu choro justamente porque estou desfigurada para sempre, com choro, sem choro, com sorriso ou sem sorriso. Me olho no espelho e não me vejo, não me encontro, não sou mais eu, é um personagem, uma atriz maquiada para um filme de terror. Verinha, você sempre achou que eu era meio exagerada, e quando me vir vai dizer, "ah, como você aumenta as coisas, não ficou tão ruim assim". É o que todos me dizem.
Vera, eu nunca havia escutado o que meu rosto original falava, nunca tinha me dado conta da linguagem das minhas expressões. Que inferno! Do que adianta descobrir tarde demais nosso afeto pelas nossas imperfeições? Eu estava tão descontente com as transformações que a idade estava me impondo, e só agora me dou conta do quanto eu estava surtada, eu não podia ter feito a retaliação que fiz, este nariz não é meu, estes olhos também não, eu sigo sendo eu mesma mas meu rosto não reflete mais isso, reflete uma mulher arrogante que achou que poderia deter o tempo e que agora tem que se contentar em ser dona de uma máscara.
Choro muito e me esgoto em tanto arrependimento e aflição. Não tenho vontade de sair de casa, e nem falar direito eu consigo. Tenho a impressão de que minha voz mudou. Sei que não mudou, mas agora tudo parece falso em mim, tudo parece faz-de-conta, por isso estou te escrevendo em vez de telefonar, optei por escrever porque minhas palavras escritas seguem do jeito que sempre foram.
Uma hora você vai me ver e, mesmo dizendo "não ficou tão ruim assim", vai entender meu desespero, impossível continuar vivendo sem autenticidade. Tenho vergonha da minha idade, como pude ser tão estúpida, eu podia não ser uma mulher bela, mas não era uma mulher feia, era uma mulher normal, era uma mulher com cara de gente, que ás vezes acordava inchada, em outras reluzia, agora não há mais nada disso, apenas esta cara de defunta preparada para seu próprio funeral. Lembra a Rosa no caixão? Eu estou igual, com a diferença de que meus dois olhos estão abertos, um mais aberto que o outro, aliás.
Não ria, Verinha, parece comédia, mas é drama, drama. Pedi licença no trabalho, é provável que perca meu emprego, serei substituída. É só no que penso, que acabou um ciclo, mudei de rosto, serei substituída por esta coisa que vejo no espelho, terei que ser outra mulher para acompanhar esta aberração. Eu sou doce, sou uma mulher alegre. Como demonstrarei isso, quem vai conseguir me enxergar através deste rosto defeituoso? Não quero mais saber desta juventude de museu de cera, não quero mais ler revistas de moda, só me interessa a verdade, só me interessa a vida, me interessa meu sorriso, a minha boca, o meu nariz, os meus olhos, o que eles eram de fato, e não como ficaram. Eu quis retroceder meu rosto, dar a ele mais jovialidade, mas não reconquistei meu viço, acabei retrocedendo em outro aspecto: me mutilei.
Aqui em casa estão divididos, o Valter acha que eu devo processar o açougueiro que fez isso na minha cara, e as crianças acho que eu devo tentar uma cirurgia de correção, o médico garante que pode consertar. Ai, Vera, consertar. Que verbo cruel.
Pareço saída de um incêndio, de um acidente de avião, uma sobrevivente de uma bomba atômica. Quantas cirurgias para amenizar o estrago? Antes fosse mesmo um acidente, assim teria sido involuntário, mas fui eu, fui eu a autora intelectual desta palhaçada. A culpa é do médico, mas é um pouco minha também, sou cúmplice e vítima deste crime.
Eu sinto a rejeição no olhar dos outros. Sabe quando as pessoas fingem não reparar quando encontram alguém com uma mancha tomando conta da metade da face? É a mesma coisa. As pessoas me olham como se fosse tudo muito normal, e eu não consigo ficar agradecida pela discrição delas, eu me sinto humilhada.
Por mais que eu deixe me "consertarem" nunca mais, nunca mais meu rosto vai falar de mim, vai fazer amigos. É com o rosto que a gente abraça as pessoas. É com o rosto que a gente atrai, e, no entanto, a partir de agora serei uma mulher de óculos escuros, uma mulher de cabeça baixa, uma mulher reservada, uma mulher escondida, evitando reflexos na vitrine, de vidros de carros, de qualquer superfície que possa me lembrar.
Venha me ver amiga. Ou não venha sei lá. Não sei o que quero. Quero ser vista, quero me ver, mas no passado, quero retroceder de novo, quero que o tempo volte para trás, não para ser mais jovem, mas para ser mais sábia.
Beijos,
(Texto extraído do livro: Tudo que eu queria te dizer. Martha Medeiros.)